O Caminho das Águas - Turismo Sustentável em Paulo Afonso e na Região dos Lagos do Rio São Francisco
Antônio Galdino da Silva¹
1 - Professor, Licenciado em Letras, Pós-Graduado em Turismo e Desenvolvimento Sustentável, Mestre em Ciências da Educação, Diretor fundador da GALCOM Comunicações (Galvídeo, jornal Folha Sertaneja e Folha Sertaneja Online), Presidente do Conselho Municipal de Turismo, representando o segmento da Imprensa.
RESUMO
No Rio São Francisco, especialmente no trecho do sub-médio/baixo, área deste estudo, que compreende quinze municípios de quatro dos cinco estado banhados pelo Velho Chico, a existência de diversificado potencial que se adéqüa às classificações como atrativos turísticos, pressupõe que a priorização de investimentos e projetos na região irá transformá-la, num curto espaço de tempo, no destino preferido por milhares de brasileiros e outro considerável número de estrangeiros.
É que na Região dos Lagos do Rio São Francisco encontram-se opções para o turismo de aventura, turismo técnico, turismo científico e cultural, histórico, religioso, náutico, identificados na concentração de hidrelétricas, no casario colonial, nas histórias do cangaço, nas tradições religiosas, na presença indígena e acultura dos seus povos, na culinária e no artesanato, na água doce desse rio totalmente brasileiro.
Esse novo destino vai de encontro ao desejo de conhecer o novo, com qualidade, segurança e conforto, valores estes que precisam ainda ser melhorados na região o que se consegue facilmente com investimentos na educação, qualificação profissional e aplicação de recursos na infra-estrutura, das estradas de acesso, ativação de aeroportos, manutenção das condições de urbanismo, limpeza e serviços públicos sem descaracterizar as tradições e a cultura regional.
Visitantes, excursionistas ou turistas, conforme são classificados pelo OMT os que saem de seu local de origem para outros destinos encontram, na proximidade dos municípios desta região e nas semelhanças de seus atrativos, quase sempre associados à presença do Rio São Francisco, a oportunidade de conhecer paisagens, culturas e costumes que os conduzem a uma real viagem no tempo, na história, na acolhida carinhosa dos seus moradores.
Palavras chaves: Rio São Francisco; Turismo; Sustentabilidade;
ABSTRACT
In Rio San Francisco, especially in the stretch of sub-médio/baixo, this study area, which includes fifteen municipalities in four of the five state bordering the old Chico, the existence of diverse potential that fits the standings as tourist attractions, requires that the prioritization of investments and projects in the region will transform it in a short space of time, the favored destination for thousands of Brazilians and other considerable number of foreigners.
Because the Lakes Region of the Rio San Francisco there are options for adventure tourism, tourism technical, scientific and cultural tourism, historical, religious, nautical, identified the concentration of hydroelectric power in colonial houses in the stories of cangaço in religious traditions, in the presence of their crop and indigenous peoples, in cooking and craft in the freshwater river that all Brazilian
This new destination is contrary to the desire to learn the new, with quality, safety and comfort, these values that need to be further enhanced in the region is reached easily with investments in education, professional training and application of resources in infrastructure, the roads of access, activation of airports, maintenance of conditions of urban design, cleanliness and public services without misread the regional traditions and culture.
Visitors, excursions or tourists, as they are classified by the WTO that they leave their place of origin to other destinations are in the vicinity of the municipalities of this region and the similarities in their attractive, almost always associated with the presence of the Rio San Francisco, the opportunity to known landscapes, cultures and customs that lead to a real journey through time in history, received the best of its residents.
Key words: Rio San Francisco; Tourism; Sustainability; Entrepreneurship
INTRODUÇÃO
O turismo, de acordo com a amplitude das viagens, pode ser classificado como: local - quando ocorre entre municípios vizinhos; regional - quando ocorre em locais em torno de 200 a 300km de distância da residência do turista; doméstico - quando ocorre dentro do país de residência do turista; internacional - quando ocorre fora do país de residência do turista.
Sob o ponto de vista da motivação que leva as pessoas a saírem de suas cidades/regiões em busca de outros destinos, por algum tempo, podemos afirmar que são possuidores de desejos, dotado de vontade livre e com possibilidades de satisfazer suas curiosidades e necessidades naturais, o homem sempre procura responder a estas estimulações e motivações.
A intensa atividade humana e os desgastes dela decorrentes levam a própria sociedade a procurar recursos capazes de fornecer aos indivíduos os necessários meios de alcançarem muitas de suas aspirações, entre as quais a prática do lazer e do turismo, cujas principais motivações são: desejo de evasão, espírito de aventura, aquisição de status, necessidade de tranqüilidade, desejo ou necessidade de compra, desejo ou necessidade cultural.
A esse elenco acrescentamos as viagens por motivos religiosos ou a necessidade de embriagar-se com as paisagens, a paz da natureza numa viagem contemplativa e energizante. Em Paulo Afonso e em outras cidades da Região do Lagos, especialmente em Santa Brígida /BA, foi diagnosticada pelo Sebrae/PE a possibilidade de exploração do turismo religioso e, em muitos lugares da região, as águas do Velho Chico, encaichoeiradas ou na placidez dos imensos lagos, ou ainda deslizando entre os paredões de granito, são paisagens que enchem os olhos e um convite a esse necessário relaxamento.
Por esta região, são muitos os atrativos que permitem uma variada oferta de opções para os que desejam viajar, descobrir mundos novos.
Estes são alguns dos tipos de turismo que a região oferece.:
- de aventura, nas trilhas, nos cânions, na prática de esportes radicais e de aventura; - religioso, nas novenas, trezenas, vias sacras e procissões fluviais, nos estudos da religiosidade, crenças e costumes regionais, valores culturais transferidos de geração para geração;
- náutico/esportivo, nos grandes lagos e no leito do rio São Francisco;
- cultural/científico, nos museus da região como o MAX, Memorial Chesf, Museu do Sertão, e dezenas de sítios arqueológicos, nos estudos do ciclo do cangaço, na riqueza do folclore regional;
- de negócios, noa artesanato regional, no comércio, nas feiras de negócios;
- histórico, do pioneirismo de Delmiro Gouveia à visita do Imperador D. Pedro II, as edificações coloniais, ruínas; nos caminhos de Lampião, o Rei do Cangaço por estas terras sertanejas;
- técnico ou pedagógico nas usinas hidrelétricas, na piscicultura, na usina de reciclagem do lixo que têm atraído milhares de estudantes de nível fundamental, médio e universitários;
- turismo de eventos caracterizado pela promoção de grandes eventos públicos, shows musicais, como Festejos Juninos, Natalinos, Carnaval, Festivais e encontros temáticos diversos.
Para isso contribui a existência da maior concentração de barragens e usinas hidrelétricas do mundo, a existência de canions, serras, grutas e trilhas, a religiosidade popular, a comprovação da presença do homem há mais de nove mil anos na região, artesanato e gastronomia variada e com ingredientes regionais que fazem a diferença, dentre muitos outros atrativos.
A INFRAESTRUTURA REGIONAL DO TURISMO E SUAS PRÁTICAS MULTIFACETADAS
Sob o ponto de vista dos equipamentos e infra-estrutura regional para o receptivo turístico, a região possui uma razoável rede de hotéis, pousadas e restaurantes, uma boa rede bancária, um comércio bem estruturado e está interligada por uma malha rodoviária que liga os municípios às capitais dos estados da Bahia, Alagoas, Sergipe e Pernambuco de que, tomando por referência o município de Paulo Afonso, estão entre 280 e 450 quilômentros de distância, considerada, em estudos recentes, como ideal para melhor aproveitamento das viagens e maior permanência dos turistas nos destinos por eles escolhidos.
A malha rodoviária que liga Paulo Afonso e cidades vizinhas a estas capitais está em bom estado de conservação e passa por melhorias na sua manutenção.
O turista tem se mostrado cada dia mais exigente e a qualidade dos serviços é cobrada com muita firmeza.
Neste sentido alguns municípios têm conseguido realizar melhorias consideráveis em seu receptivo e hotéis, restaurantes, bares, lanchonetes. Llojas comerciais vêm igualmente investindo na melhoria do atendimento, se aequando também às exigências modernas e buscando o patamar da excelência.
Por seu turno, a Chesf desenvolve um programa de grandes investimentos no que chama de Roteiro de Visitação ao Complexo Hidrelétrico da Chesf em Paulo Afonso, à semelhança do que acontece em Itaipu Bi-nacional que atrai centenas de milhares de turistas todos os anos.
Em que pese as carências ainda existentes na região, os atrativos existentes justificam os investimentos o que torna animadoras as perspectivas para o seu futuro. E a Chesf, assim como a Petrobrás, que tem interferido positivamente no desenvolvimento sócio-econômico dos municípios onde se estabelece, é parceira importante nessa busca de consolidação da economia regional através de ações e projetos tendo o turismo como base, dado o seu rico potencial regional.
Certamente que programas especiais na rede escolar de cada município, pensados pelos gestores municipais, contribuirão para manter o nível de preservação dos monumentos naturais, das praças, pequenos lagos e qualidade na prestação de serviços ao turista. O treinamento de mão de obra especializada para os vários segmentos do turismo permitirá a qualificação profissional nesta importante área da economia regional.
A educação, acadêmica, sistêmica ou especializada é um dos caminhos que deve ser visto como prioridade para a solidez desse propósito. Se vistas como prioridades pelos gestores municipais vai-se descobrir que o turismo local se constitui em uma forma de dar dinamismo econômico a estes lugares, representado pela possibilidade de geração de emprego e renda.
Não se pode também desconhecer que o turismo, especialmente aquele praticado por grandes grupos, pode trazer preocupações do ponto de vista cultural e provocar mudanças consideráveis nos costumes, na saúde, no patrimônio natural e cultural dos destinos que acolhem esses visitantes.
Assim, ao tempo que o município se prepara para receber aqueles que irão movimentar a economia local, há que se adotar algumas medidas que poderiam ser atenuantes aos impactos que o turismo irá trazer para a região onde for implantado, tais como:
a) manutenção da identidade cultural dos lugares, como próprio fator de atratividade turística e o estabelecimento de um maior intercâmbio e integração entre as populações hospedeiras e os visitantes;
b) construção de uma via democrática para o desenvolvimento de certas localidades, articulada pelo turismo como fator estruturante da valorização das potencialidades ambientais e culturais, com a participação da população local na condução ativa desse processo;
c) estabelecimento de pequenas escalas de operação e baixos efeitos impactantes dos investimentos locais em infra-estrutura turística ou mesmo nenhuma transformação adicional nesses espaços.
Segundo Andrade,”As propostas de um desenvolvimento local ‘alavancável’ por meio do turismo estaria na representação das possibilidades de ele equalizar cinco objetivos, cuja compatibilização é muito problemática:
1) Preservação/conservação ambiental;
2) Identidade cultural;
3) Geração de ocupações produtivas e de renda;
4) Desenvolvimento participativo;
5) Qualidade de vida”.
Abrem-se assim questionamentos sobre os benefícios e malefícios que as atividades turísticas trazem para as regiões onde elas existem. Discordando daqueles que defendem o turismo como desenvolvimento sustentável para uma região, “podemos analisar que não se pode deslocar uma atividade turística atribuindo-lhe potencial de sustentabilidade sem levar em conta que é uma atividade econômica, que produz (e consome) mesmo tendo como pressuposto ‘consumir’ paisagens, territórios, em ambientes considerados restauradores ou e de descanso. É preciso considerá-la articulada com os elementos gerais de produção e de consumo”.
A pesquisadora Arlete Moisés Rodrigues avalia as conclusões do relatório Nosso Futuro Comum, da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da FGV - 1991 que, segundo ela, “entafiza que os problemas ambientais serão resolvíveis no mercado que é dominante no modo industrial de produzir mercadorias” (1999, pág.45).
Vai além ao apresentar a contradição entre os termos desenvolvimento e sustentabilidade: “Desenvolver é uma meta a se atingir que compreende – no mundo moderno e pós-moderno - a produção de mais e mais mercadorias. Sustentabilidade significa a manutenção das condições que não tem sido viável na produção de novas e contínuas mercadorias”.
E conclui, de forma contundente: “Assim, o desenvolvimento da atividade turística éinsustentável, pois a natureza virou uma mercadoria, a paisagem é capturada pela atividade turística que propicia a sua rápida mudança.
Além disso, fica evidente que a sustentabilidade não pode ser pensada numa única atividade dada a inter-relação que existe entre todas as atividades econômicas”.(1999, pág.45).
Já a visão de Silveira é totalmente contrária à defendida por Arlete Moisés. Para ele, ”a adoção do conceito de desenvolvimento sustentável aplicado ao turismo representa estratégia válida para se buscar a integração entre o uso turístico, preservação do meio ambiente e melhoria das condições de vida das comunidades locais.
No entanto, se esse conceito não for incorporado às políticas práticas do planejamento territorial do turismo, em nível local, a sustentabilidade não passa de retórica. Cabe, portanto, discutir e propor formas concretas de se promover um turismo ambientalmente sustentável, economicamente viável e socialmente justo.” (1999, pág.88).
Dentre os grandes estudiosos do fenômeno do turismo está Margarita Barreto que o define como um “movimento de pessoas, fenômeno que envolve, antes de mais nada, gente. É um ramo das ciências sociais e não das ciências econômicas, e transcende à esfera das meras relações da balança comercial”.
E acrescenta:“A tendência da humanidade é a de se concentrar nas grandes cidades, o que torna esses núcleos humanos muitas vezes fonte de violência e neurose urbana. Dado esse quadro, o lazer é necessário mas não suficiente. O turismo, permitindo ao indivíduo que se distancie de seu meio e de seu cotidiano, torna-se cada vez mais uma necessidade para o bem-estar humano.”
A fuga dos grandes centros, das “selvas de pedras”, do caos do trânsito congestionado, das rotinas diárias do trabalho, tem levado cada vez mais pessoas, para o sossego dos campos, praias, fazendas e recantos de regiões do interior na busca, com intensidade crescente, de mais qualidade de vida.
Estes procuram, mesmo que por um curto espaço de tempo, renovar as energias, sair dessa “neurose urbana”. As características que fazem do turismo uma ciência social não elimina também a sua condição de gerador de recursos, embora já despontem estudos mais aprofundados que relacionam estas vantagens de crescimento econômico de regiões aos prejuízos e danos, muitas vezes irreparáveis, causados ao meio ambiente.
Ou seja, se por um lado a atividade turística traz recursos, por outro lado também desencadeia processos de degradação ambiental que podem levar até à destruição de ecossistemas, além de outros malefícios como doenças e alteração na cultura e costumes da região e até a destruição total do atrativo turístico visitado, se medidas não forem adotadas para evitar esses danos.
A necessidade de conviver com essa dualidade tem sido a alternativa de muitos lugares como afirma Luchiari no livro Olhares contemporâneos sobre o Turismo, quando afirma:“o turismo coloca-se, muitas vezes, como única possibilidade de desenvolvimento econômico para um lugar, uma cidade, uma região...” (2000, pág.105).
Esta tem sido a alternativa que os municípios da Região dos Lagos do rio São Francisco vêm buscando, detectada que foi nesta região uma variedade muito grande de atrativos turísticos, diversificados, relativamente próximos uns dos outros o que possibilita benefícios econômicos comuns a todos estes municípios. Impõe-se então para todos eles uma nova leitura de sua história, de suas tradições de sua cultura, que estava adormecida, empoeirada, quase em desuso ou limitada a um pequeno grupo de abnegados que a cultivavam mais por tradição familiar que por qualquer outro motivo.
O turismo tem o poder de assoprar sobre as cinzas e reavivar as chamas. De fazer ressurgir “casas de farinha”, artesanato, de tirar do baú coisas do “arco da velha”, dos tempos da vovó e dar-lhe novo brilho.
É o caso de exemplificarmos, numa visão maior, com o fenômeno dos festejos juninos em Caruaru e Campina Grande, onde durante um mês inteiro de festas, centenas de milhares de turistas do Brasil e do exterior trocam as pernas desejosos de acompanhar o embalo do xote, xaxado, baião que agita a todos que se empanturram de saborear comidas comuns de todos os nordestinos e que, de repente se transformam em pratos exóticos para os que vêm de fora.
É o que acontece na festa de Santo Antônio em Glória, na festa de São Pedro, no município de Santa Brígida ou no São João de Paulo Afonso. É o que vai acontecer quando os mais de cem sítios arqueológicos, com fantásticas pinturas rupestres, descobertas científicas encontradas na região dos povoados Rio do Sal, Mão Direita, Malhada Grande e Lagoa da Pedra, todos no município de Paulo Afonso, a menos de 20 quilômetros da cidade-séde se transformarem no Museu a Céu Aberto e comece a gerar receita para os moradores destes lugares, acostumados a cuidar de roças e quebrar estas pedras históricas transformando-as em paralelepípedos para virar calçamento de ruas.
A este cenário, que por si só já representa um grande atrativo indutor de visitação acrescentam-se formas diferentes de ver e sentir a natureza exótica do bioma caatinga, de vegetação sempre igual como no Raso da Catarina, do cânion, das trilhas por onde andou Lampião e a convivência com as motos e os carros que rompem os sertões nos rallyies que cruzam estas terras sertaneja.
O turista que optar em conhecer esta região pode encontrar-se com gente pendurada em cabos e cordas, fazendo tiroreza, descendo de rappel, num roop-swing ou se jogando da ponte D. Pedro II, ou dos paredões do canion, com a adrenalina à flor da pele, num bumg jump até tocar nas águas do Velho Chico, 86 metros abaixo.
Nas noites pauloafonsinas e em outras cidades beradeiras do São Francisco, os bares dos calçadões, com música ao vivo, para todos os gostos, incluindo o xote, xaxado, baião, do forró pé de serra que o sertanejo conhece de “cor e salteado” faz tempo, por esse sertão à fora, são um convite ao relaxamento de um dia de adrenalina pura. A Região dos Lagos oferece uma excelente oportunidade para se desfazer a caricutura imposta ao homem sertanejo como um coitadinho, um capiau e se valorizar o seu jeito sertanejo de ser, de linguagem simples, sem a sutileza acadêmica imposta como “cultura” e descobrir nele a essência da sua real cultura de raiz, no jeito de falar, no olhar que conhece cada pedaço desse chão, no sorriso aberto, nos causos que sabe contar como ninguém e na mão que está sempre acolhedora para receber o visitante.
As palavras novas que invadem a região, do inglês que dá nome às várias modalidades de esportes de aventura, vão se misturar ao linguajar costumeiro, centenário dos sertanejos da região. E as músicas importadas de outros pedaços do Brasil e do exterior vão aqui conviver com a autenticidade da pisada firme do côco e do xaxado, do som da sanfona, triângulo e zabumba, sem se perder na distância, o repente dos cantadores, o abôio dos vaqueiros, o trupé das corridas de vaquejadas e o canto triste dos remeiros do São Francisco. mantendo viva a cultura regional.
Exemplos não faltam aqui na região. Em Glória, o tradicional novenário de Santo Antônio, realizado em junho, há mais de um século, traz à praça a bandinha de pífanos que, mesmo vestidos e até com instrumentos modernizados, arrancam aplausos com a execução de músicas e cantos que remontam a séculos passados e na Noite dos Filhos Ausentes, dezenas, centenas deles que vivem espalhados pelo Brasil e em outros países, voltam ao seu sertão humilde, pisam de novo nas terras dos seus pais, avós e abraçam parentes e amigos de tantos anos.
É o que acontece também com as quadrilhas juninas da região, tradicionais, de características originais, e profunda riqueza em beleza e simplicidade dessa dança que, embora seja de origem francesa, ganhou contornos bem característicos na região Nordeste e lutam para permanecerem vivas assim, apesar da concorrência aberta das chamadas “quadrilhas estilizadas” que invadem os “arraiais” juninos a cada ano nestas terras sãofranciscanas. Esse turismo multifacetado está presente em todos os municípios da Região dos Lagos do Rio São Francisco e, explorado de forma consciente, será fonte permanente de renda e forma de desenvolvimento regional.
DA URBANIZAÇÃO TURÍSTICA
A urbanização de espaços, na orla e nas margens dos grandes rios como o São Francisco preocupam os que estudam o turismo como opção de desenvolvimento sustentável e portanto, de espaços, cultura e costumes cuidadosamente preservados. A urbanização turística, lamentavelmente, já se pode ver ao longo do rio São Francisco, e também na Região dos Lagos.
Cercas e porteiras impedem ou inibem as pessoas a terem acesso às suas margens e construções particulares privatizam praias e remansos. Paisagens físicas e culturais são modificadas, construções invadem as bordas dos lagos e invadem as águas do rio. Tradições são corrompidas ou deturpadas e o aculturamente de povos indígenas, parece ser resultado também do convívio social com a metrópole e seus costumes modernos e a exploração turística desenfreada e sem respeito às reservas dos moradores nativos.
Os que têm estudado as propostas de implantação do turismo como desenvolvimento local chamam a atenção para as conseqüências que estas ações poderão trazer para a região. Luchiari, com quem tive a oportunidade de conversar durante os dias do XII Encontro Nacional dos Geógrafos, realizado em Florianópolis, em julho de 2000, defendeu um trabalho sobre “as novas territorialidades do litoral brasileiro”, questionando “a urbanização turística que vem roubando os espaços públicos e as territorialidades locais do litoral para privilegiar as residências secundárias das elites.”
Benevides, ao escrever “Para uma agenda de discussão do turismo como fator de desenvolvimento local”, no livro “Turismo - Desenvolvimento Local”, organizado por Adyr Balastrery Rodrigues diz que: “Para uma agenda de discussão do turismo como fator de local, há que se considerar os horizontes culturais, políticos e ideológicos e o contexto histórico desses horizontes em relação ao processo de globalização e aos valores da pós-modernidade.” (1999, pág.23)
Alertando para os problemas que o turismo de massa certamente irá trazer, se não merecer um cuidadoso planejamento e acompanhamento, Benevides acrescenta:
a) o turismo, principalmente o de massas, tende a ser um “devorador de paisagens”, degradador do meio ambiente e descaracterizador de culturas tradicionais;
b) o turismo de massa, ao produzir imagens estereotipadas de um lugar a serem fugazmente consumidas em larga escala, implica de um lado a inserção desses lugares no processo de globalização e de outro na destruição de suas singularidades;
c) o processo de globalização, ao estabelecer uma integração seletiva e hierarquizada dos lugares, tende a ampliar as condições de marginalidade destes lugares.
d) o desenvolvimento do turismo com base local representaria tanto uma saída contraposta às tendências mencionadas em a) e b), bem como uma medida compensatória dos efeitos economicamente perversos aludidos em c). (1999, pág. 24).
Na ainda pequena, mas já crescente literatura sobre o turismo, encontramos Trigo que, no seu livro “Turismo e Qualidade - Tendências contenporâneas” que, ao falar de turismo e cultura de massas, cita Armand Mattelat que dizia nos anos 70 : “a obra de Disney seria uma faceta do grande complexo dominador formado pela totalidade da indústria cultural, a serviço do imperialismo internacional, especialmente norte-americano(...)a indústria do turismo, tal como a estruturaram as grandes empresas multinacionais do Terceiro Mundo, é um índice de como a metrópole pode invadir as sociedades ‘pré-terciárias’ com o pretexto de nelas encontrar um ‘paraíso perdido’. Acontece no turismo o mesmo que nas histórias de Walt Disney: a ilha do Pacífico onde Donald e seus sobrinhos vâo em busca de tesouros e de terapias lhes limpa a inocência perdida (e do cansaço) na metrópole”.(2000, Pág. 66)
É o que também recomenda Ruschmann, que visitou a região dos Lagos do São Francisco a convite do Sebrae Nacional e se mostrou encantada com o potencial que viu por estas terras nordestinas e define e sintetiza o que vem a ser desenvolvimento sustentável do turismo:“é aquele que atende às necessidades dos turistas atuais, sem comprometer a possibilidade do usufruto dos recursos pelas gerações futuras” .
Ou seja, turismo e meio ambiente devem conviver harmonicamente. Sem essa harmonia, sem respeito total ao meio ambiente não há como desenvolver um turismo sustentável.
Em que pese a variada conceituação do turismo e as características de sua exploração para quaisquer que sejam os fins e por quaisquer que sejam os meios, entendemos que, deixando de lado os extremistas que asseguram que tudo é proibido, intocável ou os que defendem que tudo é permitido, liberado, vem crescendo o número de pessoas que se preocupam com a preservação do ecossistema que está à nossa volta e que, por outro lado, defendem que pode-se trabalhar as pessoas, de forma educativa, planejada e sistemática para que se possa usufruir destas riquezas às margens do Velho Chico para melhorar a qualidade de vida desses ribeirinhos e das urbes que cresceram às margens do grande rio, numa convivência e parceria harmoniosa e pacífica com o rio e seus ecossistemas.
A BUSCA DE UMA IDENTIDADE REGIONAL: Fórum de Desenvolvimento, Instituto Xingó, Comlagos, Mesorregião de Xingó
Essa busca de identidade e unidade regional começou com a criação do Fórum para o Desenvolvimento dos Municípios da Região dos Lagos, reunindo a CHESF, órgãos do governo federal, prefeituras da região, bancos oficiais, Embratur, Sebrae Nacional, dentre outros com o objetivo de evitar que as cidades ribeirinhas do São Francisco, que tiveram relativo crescimento com a realização das obras das barragens e usinas da Chesf, num período de 50 anos, se transformassem em cidades fantasmas.
Nasceu então o Programa Xingó, depois chamado Instituto Xingó, que desenvolvia políticas para o desenvolvimento de 28 municípios desta região, apoaiando-se em várias áreas temáticas, uma delas de Turismo e Hotelaria que mereceu pouco prioridade e teve vida curta. Outros programas foram mantidos, e a atuação limitada do Instituto Xingó, que expandiu suas ações além da fronteira sertaneja, chegando a apoiar ações de Boa Vista, no Acre, não viu nem contribuiu para que esta sonhada unidade administrativa regional acontecesse.
Nascido por esse tempo o Comlagos, se apresentava como mais uma tentativa de unidade dos municípios ribeirinhos com identidade cultural e atrativos naturais semelhantes e que se complementavam.
Os municípios que formaram o Comitê dos Municípios da Região dos Lagos do Rio São Francisco - Comlagos -, no final na década de 1990, encontraram, nesse sentido, no Programa Xingó, um parceiro forte para buscar a interrelação entre o futuro promissor e o passado histórico, e o incentivo ao desenvolvimento sustentável através de estudos em várias áreas buscando a fixação do homem em sua região.
Estabelecer limites, definir bem as regras de manejo desse potencial em cada lugarejo que deverá ser o defensor intransigente de suas raízes culturais, seus credos, suas crenças, suas danças, seus folguedos, sua história, seu território e das águas seculares do rio, razão de sua vida na região foram propostas exaustivamente apresentadas no Comlagos e em outras ações neste sentido.
A uniformidade de ações pelo governo federal, em que pese a insistência dos que fizeram o Comlagos e a defesa instransigente de veículos da imprensa regional, como jornal Folha Sertaneja, que, desde o seu primeiro número, através de artigos do jornalista Clementino Heitor de Carvalho, tem defendido a criação da RIDE - Região Integrada de Desenvolvimento Econômico, também conhecida como RAID - Região Administrativa Integrada de Desenvolvimento, nunca encontrou eco nestas autoridades federais embora os argumentos que a defendem insistam em que razões muitas existem para a essa criação e principal delas é a presença do Rio São Francisco, verdadeira espinha dorsal unindo povos e culturas que se entrelaçam às suas margens, nos territórios de quatro estados brasileiros.
Mais recentemente, foi criada a Mesorregião de Xingó, reunindo 79 municípios. O Fórum de Desenvolvimento da Mesorregião de Xingó, reunido em Paulo Afonso em Maio de 2006, assegurava que “vinte e três ministérios, (dentre eleos os do Meio Ambiente e da Integração Nacional, presentes) estão priorizando essa região em 2006” e foi enfatizado o valor da integração dos municípios e dos Estados na mesorregião porque “ela fomenta a política de Estado, para que as ações de governo tenham continuidade”, como discursou o Secretário de Programas Regionais do MIN, na época, Carlos Gadelha (jornal Folha Sertaneja Nº27, de 29/05/2006).
Criou-se a Mesorregião cujo raio de ação e quantitativo de municípios envolvidos, setenta e nove, desde o seu nascedour já afastava as ações da prioridade dos municípios, (cerca de 15) desta Região dos Lagos área de abrangência dos lagos, cânion e do baixo São Francisco para que se estabeleça uma relação de proteção sim, mas de possibilidade de desenvolvimento sustentável.
Esta excepcional potencialidade turística nessa região foi o que encontraram os geógrafos, arquitetos, historiadores e especialistas em turismo que se espalharam pela região, sob a coordenação do Sebrae de Pernambuco e produziram, anos antes, em 1998, o que resultou num esclarecedor relatório chamado Região dos Lagos do Rio São Francisco - Potencial Turístico: uma oportunidade de negócios - confirmando a existência de imenso potencial diversificado de atrativos turísticos naturais que possibilitarão um crescimento expressivo no número de visitantes nas cidades ribeirinhas deste rio nos estados da Bahia, Alagoas, Sergipe e Pernambuco.
Os dados ali anotados são, ainda, grande e atual fonte de informações sobre os atrativos turísticos naturais e culturais desse trecho do “rio da unidade nacional”.
Nesse estudo descobriu-se também a existência, em sua forma quase pura, de rituais, cânticos, danças em Santa Brígida/BA., com os seguidores do Beato Pedro Batista que o veneram e lhe prestam culto à semelhança do que acontecia em relação a Antônio Conselheiro, que também deixou marcas na região, em sua passagem por Pão de Açúcar e com uma Igreja erguida em Chorrochó/BA, ou os beatos de Padre Cícero Romão, de Juazeiro do Norte/CE.
O EXEMPLO DE DELMIRO GOUVEIA. E ÁGUA BRANCA, PIRANHAS...
Esta região caatingueira viu surgir a figura do cearense de Ipu, Delmiro Gouveia, hoje reverenciado pela Fundação Delmiro Gouveia e pelos habitantes da cidade que lhe homenageia com seu nome pelos seus muitos feitos que promoveram mudanças radicais para o povo da região.
Considerado o Mauá do Sertão, aqui se estabeleceu nos idos de 1903 e provocou uma revolução industrial sem precedentes e que seria ainda muitas vezes maior se não fosse a falta de apoio de governantes nordestinos da época, início do século XX.
Dentre estas ações que mudaram a história da região, construiu a Usina Angiquinho, ao lado da Cachoeira de Paulo Afonso de onde levava energia elétrica e água encanada, para a Vila da Pedra, hoje Delmiro Gouveia em Alagoas e para a sua fábrica de linha de coser, Cia. Agro Fabril Mercantil - hoje Fábrica da Pedra, a 24 quilômetros da cachoeira.
O viajado sertanejo, conhecedor das terras européias, queria ir bem mais além: levar a energia elétrica de sua Usina Angiquinho e de outras que estava construindo, para todo o Nordeste Brasileiro, feito só possível a partir de 1955, com a costrução da primeira usina da Chesf. Ainda assim, foi o pioneiro do automóvel por estas terras, do cinema, do repouso semanal remunerado para os trabalhadores.
Abriu mais de 500 quilômetros de estradas de rodagem e implantou na região os princípios de preservação da natureza, só recentemente merecedores de estudos mais aprofundados, como registrou Frederico Pernambucano de Melo em seu livro “Delmiro Gouveia - desenvolvimento com impulso de preservação ambiental”.
Segundo relata este pesquisador, “Assis Chateaubriand ouvira de Delmiro uma declaração de amor pela fauna sertaneja, sublinhada formalmente através da proibição da caça num raio de 20 quilômetros da vila industrial.
O jornalista teve o cuidado de anotar a explicação de Delmiro sobre as razões da medida. Dizia este, sempre prático: ‘Obtenho dois resultados com isto: ensino-os a serem dóceis com os animais e combato a vagabundagem. O caçador aqui é um preguiçoso’. E acrescentava, sentencioso como um patriarca do Velho Testamento: ‘Em Pedra, homens e animais - exceto bois, porcos e galinhas - só quem mata é Deus”. (1998 - pág. 48)
Na cidade de Delmiro Gouveia, a pequena capela, de N. S. do Rosário, do século XIX, era o centro dos grandes encontros religiosos da região naquela época e ainda hoje ergue-se imponente no centro de moderna praça recentemente construída.
A cidade abriga ainda a Fábrica da Pedra, o Museu Regional Delmiro Gouveia na estação da Estrada de Ferro Paulo Afonso - Piranhas a Jatobá, construída por decisão do Imperador D. Pedro II a partir de 1882 e em funcionamento até 1964. E como não lembrar de conhecer Água Branca, onde viveram o Barão e a Baronesa e cuja mansão emoldura a paisagem no alto da serra.
Ali,uma igrejinha do século XVIII ainda resiste, na sua simplicidade, e contempla a modernidade dos visitantes que chegam em seus automóveis e motos e sobem as ruas pedras irregulares, contemplando os grandes casarões e as construções coloniais em estilo barroco e se extasiam com.a imponência da matriz de N. Sra. da Conceição, erguida no século XIX.
Um Festival de Inverno realizado em julho, todos os anos, atrai milhares de pessoas para Água Branca onde também se reencontram muitos filhos da terra espalhados pelo Brasil e pelo mundo. A região nos oferece a cidade-presépio, Piranhas, no início do último trecho do rio São Francisco, a 200 quilômetros da foz.
A passagem do Imperador D. Pedro II, em sua viagem para conhecer a Cachoeira de Paulo Afonso, o final trágico do cangaceiro Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros do bando, na Grota do Angico, deixou suas marcas em Piranhas onde, recentemente, mais de 300 edificações foram tombadas pelo Patrimônio Histórico Nacional.
Ali, o Museu do Sertão registra as memórias de um passado histórico e os bordados de Entremontes enfeitam as casas e as mulheres européias. Há muitos relatos da vida e do homem da região, da Estrada de Ferro Paulo Afonso (Piranhas-Jatobá) - de Piranhas, em Alagoas a Jatobá, hoje Petrolândia, em Pernanbuco, “construída por ordem do Imperador D. Pedro II, com o objetivo de ligar o baixo ao alto São Francisco, já que o trecho a partir de Piranhas não era navegável em razão da cachoeira de Paulo Afonso”, como relata Luiz Ruben Bomfim no livro “Estrada de Ferro Paulo Afonso-sua origem” (2007-Pág. 7).
POR AQUI REINOOU E MORREU LAMPIÃO
Não se pode desconhecer os muitos relatos de personagens ainda vivos que acompanharam de perto as andanças do Capitão Virgulino Ferreira, o temível Lampião, pelas terras nordestinas e com muita frequência em Paulo Afonso, pelo Raso da Catarina, nos muitos povoados hoje pauloafonsinos, dentre eles a Malhada da Caiçara, onde nasceu e morava Maria Gomes de Oliveira, conhecida como Maria de Déa e depois, Maria Bonita, companheira de Lampião.
O pesquisador João de Souza Lima, escreveu vários livros sobre o tema do cangaço. Em um deles, “A trajetória guerreira de Maria Bonita, a Rainha do cangaço”, conta a história da cangaceira. Em outro, chamado “Lampião em Paulo Afonso” identificou a presença de 47 cangaceiros do bando de Lampião que moravam na região e relata a batalha entre os cangaceiros e os soldados da volante no lugar conhecido como Lagoa do Mel, em Paulo Afonso, onde morreu Ezequiel Ferreira da Silva, irmão de Lampião. “Ezequiel tombara no campo de luta, crivado de balas pelas descargas acionadas pela arma do Sargento Arsênio, uma potente metralhadora Hot Kiss. A data era 24 de Abril de 1931. Lampião constatou que sua perda havia sido maior do que o comandante daquela volante e chorou penosamente a morte do último irmão no cangaço”.(2003 -Pág. 119).
Emboscado na madrugada de 28 de Julho de 1938, na Grota do Angico, município de Poço Redondo/SE, Lampião, Maria Bonita e nove cangaceiros e um soldado foram mortos. As cabeças dos cangaceiros foram cortadas e expostas na escadaria da Prefeitura de Piranhas.
Para se chegar à Grota do Angico, onde estão cruzes de metal com os nomes dos mortos, faz-se o mesmo percurso feito pelos soldados da volante, descendo o rio São Francisco e percorrendo 700 metros de uma trilha. Todas essas histórias de empreendedores, de Delmiro à Chesf, da visão do Imperador, e do “fenômeno social” que é o ciclo do cangaço alimentam o imaginário popular e o desejo de conhecer a região dos Lagos do Rio São Francisco.
AS MUITAS ÁGUAS DA REGIÃO DOS LAGOS E O TURISMO TÉCNICO E DE EVENTOS Sobre esta região,
Alejandro Luiz, escreve e aponta para um potencial já explorado em Paulo Afonso que é o esporte aquático: “A grande superfície aquática formada pela seqüência dos lagos das hidrelétricas de Itaparica, Paulo Afonso e Xingó e ainda por trechos do rio São Francisco, acompanhados de um clima que garante a presença do sol e de brisa quase todos os dias do ano, fazem da região um local vantajosamente diferenciado para a prática de quase todos os tipos de esportes aquáticos e náuticos.” (1996, pág.24)
Os velejadores que participaram das Copas de Velas realizadas em Paulo Afonso consideraram as águas da Bacia de PA-IV, onde está a Prainha, como uma das melhores raias do Brasil. para essa prática de esportes a vela.
A construção das barragens pela Chesf fez nascer grandes lagos como o de Itaparica, cujas águas alimentam a Usina Luiz Gonzaga e banham, com 11bilhões de metros cúbicos, as regiões de Pettrolândia, Floresta, Itacuruba. Á jusante da Usina fica Jatobá que já recebe as águas da Barragem de Moxotó - 1 bilhão de metros cúbicos - que também banha as terras da cidade e município de Glória e de Paulo Afonso.
Depois da Usina Paulo Afonso IV, em Paulo Afonso, deslumbra-se o canion majestoso do rio São Francisco, com paredões de granito que chegam a mais de 100 metros de altura. No leito do rio, espremido entre estes paredões o rio segue seu curso, cortado por lanchas e catamarões levando turistas em passeios memoráveis.
E as grandes águas continuam no Lago de Xingó, com 3,2 bilhões de metros cúbicos, também cortado pelos passeios de catamarãs e escunas conduzindo turistas boquiabertos.
Nessa área de cerca de 80 quilômetros de raio, partindo de Paulo Afonso 7 grandes usinas hidrelétricas produzem mais de 8,5 milhões de quilovats de energia elétrica, 783,4% de todo o parque gerador da Chesf. Nestas usinas acontece o que chama de turismo técnico centrado na visita de estudantes, técnicos, engenheirandos, às usinas do complexo Chesf na região. Só em Paulo Afonso existem cinco grandes hidrelétricas num raio de quatro quilômetros. São as Usinas Paulo Afonso I, II, III e IV, no território baiano e Apolônio Sales, em terras alagoanas.
A trinta e cinco quilômetros a montante da Cachoeira de Paulo Afonso está outra grande usina hidrelétrica, a Luiz Gonzaga, em Petrolândia-PE e a 80 quilômetros a jusante de Paulo Afonso está a Hidrelétrica de Xingó, em Canindé do São Francisco-SE, na divisa dos Estados de Sergipe e Alagoas. Além destas grandes usinas hidrelétricas Paulo Afonso tem ainda a pioneira Usina Piloto, de apenas 2HP.
A Usina Angiquinho, construída por Delmiro Gouveia em 1913, no lado da Cachoeira de Paulo Afonso, no município de Delmiro Gouveia-AL., está inoperante desde 1961 e pode ser visitada pelo lado alagoano e os que estão no Mirante da Cachoeira, na Ilha do Urubu-Chesf, em Paulo Afonso têm dela uma visão privilegiada.
As Usinas Hidrelétricas da Chesf recebem grande número de visitantes, especialmente os estudantes de escolas técnicas e de faculdades de história, geografia e de engenharia, além jornalistas, escritores, fotógrafos, pesquisadores sobre o rio São Francisco.
Ao rico e diversificado artesanato e à variada culinária regional pode-se juntar intenso e variado calendário de eventos que vai das festas de vaquejadas, cavalhadas, festivais e encontros de repentistas e violeiros e grandes eventos musicais. Comumente, no sertão, muitas festas se associam a outras de cunho religioso e tradicional, novenas, trezenas e festas de santos padroeiros.
O religioso e o profano formam o turismo de eventos, bastante intensificado em Paulo Afonso como o encontro anual de motociclistas que reúne milhares de participantes de todo o Brasil e de outros países. A diversidade de eventos, em toda a região, é enorme e passa por grandes programações como os Festejos Juninos, carnavais fora de época e grandes shows musicais religiosos com atrações evangélicas e católicas de projeção nacional. Na região também acontece as Missas do Vaqueiro e procissões tematicas.
SÃO FRANCISCO, O RIO DA UNIDADE NACIONAL
O grande rio, conhecido por séculos com o “rio dos currais”, chamado por Euclides da Cunha de “rio da unidade nacional” e por João Ribeiro de “o grande caminho da civilização brasileira”, até de “o Nilo brasileiro”, embora nascido na Serra da Canastra, em São Roque de Minas, em Minas Gerais, firmou uma identidade secular com o sertão que abraça e beija por centenas de quilômetros.
Esta relação sertão/rio está clara na citação de João Guimarães Rosa no livro Grande Sertão:Veredas quando afirma: “O Sertão é do tamanho do mundo. Agora, por aqui, o senhor já viu: rio é só o São Francisco, o rio do Chico. o resto pequeno é vereda.” Este rio, que os índios chamavam de Opará, que significa grande mar, foi percorrido légua a légua, de Pirapora, em Minas Gerais até a foz, por Henrique Halfeld, geógrafo alemão naturalizado basileiro, a mando do Imperador D. Pedro II, entre 1856 e 1858.
O resultado dessa viagem, chamda de Atlas e Relatório do Rio São Francisco, motivou a visita do monarca para ver a beleza da Cachoeira de Paulo Afonso em 1859. Embora fragilizado pela destruição de suas matas ciliares, pelos esgotos in natura que recebe ao longo de sua caminhada por todos estes séculos de vida, e agora pela sua transposição por decisão do governo federal, continua grande, imponente e a razão da vida de milhões de pessoas que vivem nas centenas de municípios e povoações que se ergueram às suas margens .
Suas águas agitadas, cheias de cascatas e grandes cachoeiras, foram contidas por enormes barragens e transformaram-se em lagos imensos, agora propícios para a prática de atividades que resultem em lazer e renda, através de projetos turísticos. Porque, se por um lado os projetos de construção de grandes barragens trazem grandes prejuízos para o meio ambiente e destrói ecossistemas, uma vez construídas devem ser aproveitadas para que destas águas se permita o desenvolvimento econômico de outras formas e não só pela produção de energia.
As atividades turísticas se apresentam como oportunidades do uso dessas águas para oferecer mais qualidade de vida aos ribeirinhos. A inexistência de projetos de grande porte para esse aproveitamento causa espanto em pesquisadores como Marina de Sá Carvalho que afirma em seu livro “Turismo, conceito e didática”: “São municípios limítrofes, favorecendo a implantação de Complexos Turísticos, e todos podem ser classificados como Potenciais Turísticos Latentes.
Considerando a alta rentabilidade que o turismo pode oferecer nestas cidades, com tão grande concentração de atrações naturais, é inacreditável que nem sequer se cogite em explorá-los”(1997, Pag.32) Complementando os passeios pelo rio São Francisco, já existentes no Lago de Xingó e a jusante desta barragem, até a foz, surgem agora, ainda que incipientes, os passeios de catamarã no cânion do São Francisco em Paulo Afonso.
Mas falta investir em passeios pelos lagos de Moxotó e PA-IV em Paulo Afonso, e outros passeios no Lago de Itaparica, no município de Petrolândia-PE. Podemos constatar que no caso de novas áreas, a intensidade dos fluxos turísticos, a velocidade da realização de investimentos e de ocupação fisico-territorial relaciona-se diretamente com o poder de atratividade, o valor ambiental turístico e os produtos criados.
Depois de passar por Paulo Afonso, município que nasceu às suas margens e tem apenas meio século de vida e mai s de cem mil habitantes e onde, aprisionado pelas barragens, movimenta dezenas de geradores e produz energia elétrica em cinco das grandes usinas, o rio São Francisco segue encaixotado no canion por mais de 60 quilômetros, formando o Lago de Xingó, com 3,2 milhões de metros cúbicos.
Novamente uma imensa barragem de mais de 140 metros de altura interrompe o seu caminho natural. Percorre túneis construídos pelo homem. Move os modernos geradores da Usina Hidrelétrica de Xingó que. Produz mais 3 milhões de quilovats de energia elétrica para o Nordeste.
No fechamento dessa barragem o homem da região viu, assombrado, pela primeira vez, o rio São Francisco totalmente parado, inerte, como morto, enquanto suas águas se acumulavam para encher a barragem de Xingó que tem, em muitos trechos profundidade superior a 170 metros .
Depois, segue o seu curso, banha o município e a cidade-presépio de Piranhas e, passa na entrada da trilha que leva à Grota do Angico, mesmo trajeto por onde as canoas sobre suas águas levaram os soldados das volantes, em 1938, para o confronto final com Lampião, o Rei do Cangaço.
E o rio São Francisco continua sua caminhada até o encontro com o Oceano Atlântico, 200 quilômetros abaixo, na divisa dos Estados deAlagoas e Sergipe. Ele chega à foz entre Piaçabuçu-AL e Brejo Grande-SE tão cansado que o mar vai lhe receber muitos quilômetros acima, num abraço que mistura o doce e o sal, como tem sido a vida do sertanejo, e desaparece nas entranhas do oceano imenso.
Não pensem todos que o homem deixou o rio quieto. Desde que foi descoberto em 1501 ele não teve mais sossego. Já foi grande hidrovia, hoje com caminhos encurtados, sinuosos e inseguros. No seu leito, o homem foi buscar a água para imensos projetos de irrigação. De suas águas sai a energia elétrica que ilumina o Nordeste e se espalha pelo Brasil a fora.
Também de suas águas sai a irrigação de milhares de hectares que produzem frutas em vários de seus trechos para alimentar milhões de pessoas na Europa, nos Estados Unidos, no mundo,
Suas margens agora são sangradas e suas veias abertas num projeto doloroso de transposição de suas águas, com a justificativa questionável de que o rio São Francisco vai proporcionar melhores condições de sobrevivência para milhões de moradores de cidades e povoações dos Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, sofredores seculares com a aridez de suas terras localizadas no chamado Polígono das Secas.
Polêmico e mal arrumado, mesmo que técnicamente viável, o projeto de transposição do rio São Francisco é visto por muitos como o atestado de morte definitiva deste que é o único rio totalmente brasileiro, cantado em verso e prosa por poetas, artistas populares, jornalistas e estudiosos do seu manancial. Sobre ele, assim se expressou o religioso franciscano Dom Luiz Cappio, Bispo de Barra, que ganhou as manchetes dos principais jornais e redes de televisão do Brasil e do mundo ao se posicionar, em duas greves de fome, como ferrenho e intransigente voz contrária à transposição do Ro São Francisco.
Em uma viagem que fez da nascente à foz do rio deu o seguinte depoimento ao repórte José Raimundo no programa Globo Repórter, da Rede Globo de Televisão: “O rio Sâo Francisco é o grande dom de Deus, é o grande presente de Deus pra vida desse povo. São milhões de pessoas que vivem graças a vida do rio. E aquele que é gerador de vida, precisa se manter vivo”.
Apesar das greves de fome de Dom Luiz Cappio, a que ele chamou de jejum, contra a transposição do rio São Francisco, e centenas, milhares de manifestações, seminários, encontros e fóruns sobre o assunto, envolvendo cientistas, geógrafos, políticos, atores e atrizes do cinema e da televisão no Brasil e no exterior, as obras para a transposição das águas do Rio São Francisco, em dois grandes eixos, continuam sendo executados pelo Exército brasileiro.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com o objetivo de se ter sempre novidades para “agradar” os que vêm de fora, muitas vezes peca-se contra as tradições, corre-se o risco de disvirtuar-se o bom porque é antigo, descaracteriza-se a cultura na sua essência mais natural e as raízes mais puras deixam de ser preservadas, perdem o valor.
É preciso que sejam estabelecidos limites, definidas as regras de manejo desse potencial e cada lugarejo, cada povoado, cada cidade, cada região, cada cidadão deve ser defensor intransigente de suas raízes culturais, seus credos, suas crenças, suas danças, seus folguedos, sua história.
Na região, não têm fim as histórias dos coronéis, Delmiro Gouveia, Petronilo Reis, seu pai, Ângelo Reis, João Sá e tantos outros. Esse potencial, tão diversificado e presente, está, de forma especial, na região dos Lagos nos municípios do sub-médio e baixo São Francisco como Tacaratu, Jatobá e Petrolândia, em Pernambuco, Glória, Paulo Afonso e Santa Brígida, na Bahia, Canindé do São Francisco, em Sergipe e Água Branca, Delmiro Gouveia, Olho D‘Água do Casado, Piranhas, em Alagoas, além de outros municípios desses Estados, tanto à montante como a jusante da Cachoeira de Paulo Afonso até a sua foz, cruzando-se e complementando-se nos caminhos do Rio São Francisco.
A riqueza e a extensão do potencial turístico encontrado nesses municípios da Região dos Lagos do Rio São Francisco apontam para a possibilidade da criação de grande número de projetos, aproveitando-se esses atrativos existentes e o fomento à criação de novos produtos possibilitando o desenvolvimento permanente e sustentável do município de Paulo Afonso e de todos os outros desta região que tem com espinha dorsal, razão da existência e da vida de todos eles, o Rio São Francisco, o rio da unidade nacional.
Considerando-se aqui todas as premissas de desejo de se conhecer o novo, do homem entranhar-se sertão a dentro em busca de novas aventuras, novas descobertas e levando-se sobretudo em conta a similaridade dos atrativos que existem pelos caminhos do Velho Chico, concluímos que é natural que se levantem expectativas para a criação de programas e desenvolvimento de projetos nos Ministérios do Turismo, do Meio Ambiente e da Integração Nacional, no Estados e nos municípios criando-se as oportunidades de desenvolvimento sustentável para toda essa região e a conseqüente melhoria da qualidade de vida dos seus moradores ribeirinhos.
REFERÊNCIAS
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LIMA, João de Souza, Lampião em Paulo Afonso. 1ª Ediç&